Mursi: o corpo como linguagem, cuidado e pedagogia social
.Muito além do olhar estético, a travessia pelo povo Mursi nos convida a compreender o corpo como linguagem viva. Discos labiais, argila, cicatrizes, pulseiras e pigmentos naturais não são apenas adornos. São tecnologias ancestrais de cuidado, formação social, proteção e memória. Entre ritual, medicina e pertencimento, o corpo se torna arquivo, pedagogia e território.
ANCESTRALIDADES
Amanda Coelho
3/30/20265 min read


Ao nos aproximarmos da estética do povo Mursi, no Vale do Omo, na Etiópia, torna-se essencial deslocar o olhar da curiosidade visual para a dimensão simbólica, política e pedagógica do corpo.
Entre os Mursi, a ornamentação não se limita ao campo da beleza. Ela é um sistema de formação social.
Os discos labiais e auriculares, por exemplo, estão profundamente relacionados a uma moralidade incorporada ao corpo. Mais do que adornos, eles fazem parte das formas pelas quais a comunidade ensina suas crianças a se tornarem pessoas sociais, morais e saudáveis.
O corpo, aqui, é também um território educativo.
A estética ensina.
A matéria forma.
O gesto constrói pertencimento.
Discos labiais: fertilidade, dança e narrativas orais
Os discos labiais de barro são tradicionalmente utilizados por meninas em idade de casamento e por mulheres em idade fértil.
Sua presença está associada à fertilidade, à maturidade e à transição para outras fases da vida.
Há também uma relação importante com narrativas orais antigas, o que reforça a dimensão de memória e continuidade desse adorno.
Em muitos contextos, especialmente para meninas em idade de casamento, os discos são usados durante danças.
Esse detalhe é particularmente potente para a leitura curatorial:
a dança, o corpo e o adorno constroem juntos uma visualidade ritual.
Não se trata apenas de “usar” um objeto.
Trata-se de ativar um estado de presença.
O movimento do corpo com o disco labial produz um gesto específico, mais lento e mais cerimonial, criando uma gramática visual própria.






Perfurações auriculares: escuta, crescimento e transformação do corpo
As perfurações nas orelhas também possuem um forte significado formativo.
Meninos e meninas perfuram as orelhas com espinhos ou pequenos cortes feitos com faca.
Depois disso, peças de madeira são inseridas de forma progressiva, aumentando gradualmente a abertura.
Nos meninos, essa abertura costuma alcançar entre 2 e 3 cm; nas meninas, pode ser ainda maior.
Após a cicatrização, os plugs são removidos, restando a abertura como marca permanente.
Em mulheres mais velhas, não é incomum que o lóbulo apresente rasgos decorrentes do uso prolongado.
Do ponto de vista curatorial, essa prática revela uma compreensão do corpo como matéria em transformação.
O corpo cresce, expande e carrega as marcas do tempo.
Há aqui uma pedagogia da escuta e da formação do sujeito, na qual a orelha deixa de ser apenas um órgão e se torna signo social.




Joias, pulseiras e tecnologias de defesa
As joias, especialmente as pulseiras, constituem outro eixo importante dessa estética.
Todas as mulheres utilizam pulseiras.
As pulseiras metálicas em formato de “m”, chamadas siggi, são provenientes do povo Me’en, localizado ao norte dos Mursi.
Quanto maior a quantidade, maior a força simbólica do adorno.
Elas são usadas principalmente nos pulsos e tornozelos.
Mulheres mais velhas também podem usar pulseiras mais espessas, chamadas ula.
O aspecto mais potente, no entanto, é perceber que essas peças não possuem apenas função estética.
Elas também são tecnologias de autodefesa e mediação de conflitos.
Entre meninas jovens, há inclusive a prática de duelos realizados com golpes de pulso, conhecidos como “duelos de pulseiras”.
Aqui, o adorno se converte em instrumento de corpo, força e negociação social.
Escarificação: marca, cura e passagem
À medida que meninos e meninas se aproximam da altura adulta, pequenos cortes começam a ser feitos na pele.
Essas incisões cicatrizam e formam marcas decorativas conhecidas como kitchoga.
As marcas costumam aparecer:
no peito
sobre os seios
na parte superior dos braços
Em meninas, também podem aparecer no abdômen e, em gerações mais antigas, nas costas.
Os cortes eram realizados levantando a pele com um espinho curvo e, em seguida, cortando com lâmina afiada. No passado, utilizava-se obsidiana.
Mais uma vez, estamos diante de uma prática que não pode ser lida apenas como ornamentação.
A escarificação marca fases da vida, amadurecimento corporal e, em alguns casos, experiências de doença.
Em meninas antes da menstruação, essas marcas também podiam ser realizadas após episódios de enfermidade, assumindo um sentido simultaneamente medicinal e simbólico.
O corpo torna-se arquivo.
Cada cicatriz é uma inscrição de experiência.
Pintura corporal: entre pragmatismo e desejo
A pintura estética é mais comum entre rapazes mais velhos, especialmente como forma de atrair a atenção das meninas.
No entanto, no cotidiano, sua função é majoritariamente pragmática.
Meninos que passam o dia com o gado aprendem a cobrir o corpo com lama úmida ou argila.
Esse gesto tem funções concretas:
proteção contra insolação
proteção contra arranhões de arbustos espinhosos
Homens mais velhos também cobrem a boca ou toda a cabeça com cinzas do curral e, em alguns casos, com esterco fresco de gado, como forma de afastar moscas.
Esse dado é extremamente potente, pois desloca a ideia de pintura como algo exclusivamente estético.
Aqui, ela é ferramenta de sobrevivência




A terra como medicina
Talvez o aspecto mais forte de toda essa travessia estética seja este:
para os Mursi, a principal razão da pintura corporal é medicinal.
Ela pode atuar de forma:
preventiva
curativa
Terras, argilas e minerais são compreendidos como substâncias ativas.
Os Mursi falam da terra como algo que age sobre o corpo.
A terra não é matéria passiva.
Ela possui agência.
Assim como se come alimento, também se fala em “comer” terra e argila através da pintura corporal.
Essa é uma compreensão profundamente sofisticada da natureza como tecnologia de cuidado.
A estética, portanto, é medicina.
O corpo é território terapêutico.
E a natureza, ciência ancestral.






